Linha de Horizonte | Rui Macedo

INAUGURAÇÃO | 24 OUTUBRO
24 de Outubro de 2026

Às 16:30

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“Linha de Horizonte” de Rui Macedo

abre ao público na antiga cozinha

da Cadeia do Forte de Peniche

 

O Museu Nacional Resistência e Liberdade–Fortaleza de Peniche (MNRL) inaugura no próximo sábado, 24 de outubro, às 16h30, a exposição temporária “Linha de Horizonte”, de Rui Macedo, com co-curadoria de Aida Rechena e Inês Valle. A inauguração assinala, também, a abertura ao público da zona das antigas cozinhas da Cadeia Política do Forte de Peniche, espaço que preserva a sua configuração arquitetónica original, enquanto lugar de encarceramento político durante a ditadura.

Esta exposição individual apresenta uma intervenção site-specific que interliga a pintura, a instalação e a morfologia arquitetónica do lugar, a partir do património material e imaterial da antiga cadeia, para se debruçar sobre repressão, tortura, resistência, liberdade e memória. Pela pintura, Rui Macedo aproxima diferentes tempos e geografias, convoca a memória histórica para a trazer à contemporaneidade. Esta exposição mostra, material e metaforicamente, uma leitura crítica do poder punitivo e das suas derivações autoritárias, e estabelece relações entre modos de repressão artística e política que, inevitavelmente, nos encaminham para noções de liberdade, dignidade e direitos humanos.

No centro da investigação está a alimentação enquanto modo de exercer poder: o que se come, como se come, quem determina o que pode ser consumido e em que condições. A alimentação fornecida aos presos era frequentemente insuficiente e de má qualidade, dando origem a sucessivas reivindicações e lutas por melhores condições, envolvendo, igualmente, nestas lutas, familiares e camaradas dos reclusos. A comida tornou-se um lugar de dupla condição: por um lado, mais um instrumento de privação e humilhação por parte do regime, por outro, um modo de resistência onde a partilha e a solidariedade entre os prisioneiros reforçou a união.

A Cadeia do Forte de Peniche, construída entre 1954 e 1962, foi apresentada pela propaganda do Estado Novo como uma prisão-modelo moderna e dotada de condições de referência. Na realidade, os presos estavam sujeitos a um severo regime celular, permanecendo confinados às suas celas durante cerca de 20 horas por dia. A cozinha, juntamente com a lavandaria, enfermaria e oficinas, integravam a estrutura de funcionamento da prisão e um sistema destinado a disciplinar, controlar e ‘silenciar’ os presos.

A investigação que sustenta Linha de Horizonte cruza arquivos sobre a antiga Cadeia do Forte de Peniche e outras prisões nos territórios africanos colonizados por Portugal com testemunhos de diferentes experiências de encarceramento em várias geografias. A pesquisa acompanha ainda os lugares e percursos da repressão artística, política e colonial, estabelecendo relações entre diferentes contextos durante a ditadura, bem como atuais.

A exposição desenvolve-se num diálogo direto com a arquitetura – as antigas cozinhas não foram musealizadas nem transformadas numa reconstituição histórica: preservam a sua configuração, as marcas nas paredes, a ferrugem dos fogões, os sinais de desgaste e outros vestígios da sua utilização. O próprio espaço torna-se, assim, parte da exposição e testemunho material do passado.

Entre privação e partilha, silêncio e expressão, confinamento e liberdade, Linha de Horizonte aproxima diferentes tempos e geografias e questiona o que permanece quando o poder deixa marcas nos espaços, nos corpos e nas memórias. Em diálogo com a missão do MNRL, a exposição assume a Arte Contemporânea como espaço de reflexão sobre a memória histórica e sobre os valores de liberdade, dignidade e direitos humanos.

 

A exposição pode ser visitada até ao dia 27 de abril de 2027, de quarta-feira a domingo, entre as 10h00 e as 18h00.

 

 

“Num espaço carcerário destinado a presos políticos tudo assume uma função repressiva, de desgaste físico e mental, com a finalidade de quebrar os espíritos. A cozinha da antiga Cadeia política do Forte de Peniche, apesar do seu aspeto assético e industrial, era um instrumento da repressão exercida sobre os presos com a alimentação de má qualidade que lhes era servida.

A exposição de arte “Linha de Horizonte” de Rui Macedo desafia-nos a olhar para além da arquitetura e da organização deste espaço, aparentemente inócuo, e a procurar o alcance profundo e sistemático da repressão exercida sobre os resistentes e lutadores pela liberdade, mas também a sentir a resistência e a solidariedade entre os presos.”

– Aida Rechena, co-curadora

“Dedicada à liberdade e à persistência de quem a defende, “Linha de Horizonte” convoca a pintura como espaço de fricção entre obra e arquitetura, o visível e o latente, cruzando diferentes tempos e geografias. Na antiga cadeia de Peniche, Rui Macedo traz para a superfície pictórica as marcas físicas da opressão inscritas na cultura material e imaterial do lugar. A exposição recusa fixar-se, apenas, no passado português ou colonial. Aproxima diferentes conjunturas de violência e dilata o nosso olhar sobre a liberdade — nunca garantida e sempre sob vigilância. A memória não é um arquivo estático, mas um território vivo de reivindicação, onde a Arte também se afirma como uma forma de resistência.”

— Inês Valle, co-curadora

 

Local / Sala

Antigas cozinhas da Cadeia do Forte de Peniche